“Todos escondem quem são pelo menos parte do tempo. Às vezes,
você enterra essa parte de si mesmo tão fundo, que precisa ser lembrado
de que ela está lá. E, às vezes, você só quer esquecer quem você é de
verdade.” (Dexter Morgan)
Passamos a vida usando máscaras. Trocamos de máscara várias vezes ao
dia, milhões de vezes ao longo de uma vida. Não é fingimento, mas papéis
que precisamos desempenhar ainda que não estejamos com vontade, passes
para transitar no mundo e fazer nossas conquistas pessoais. Na reunião
de trabalho usamos a máscara da mulher provedora. Se a demanda for pela
mãe afetiva, ajudamos o filhote com o dever da escola, ou ralhamos com
ele para que tome seu leite pela manhã, ou o deixamos no curso de
inglês. Em algum momento chega a hora de dar vida à mulher que precisa
manter a forma apesar de tudo: na academia de ginástica, ioga, pilatis
ou seja lá o que for. Se houver marido, há o momento esposa, cafuné num
pescoço cansado, ouvir novidades ou queixumes, falar se houver
oportunidade. Se a vida estiver saudável, invariavelmente entra em cena a
mulher fatal, em nome de suas próprias demandas e desejos e/ou para
manter acesa a chama de uma relação. Se há um namorado, o papel tem
outras nuances, mas permanece a necessidade de colocar na linha de
frente a mulher atraente, desejável. As máscaras servem para mostrar o
melhor de nós, dependendo da necessidade. Mas e o pior de cada um de
nós, pra onde vai?
O pior, de preferência, só a gente conhece. E transparece, às vezes,
sem querer, em pequenos delitos diários, no trânsito, em pensamentos e
desejos mórbidos que nos tomam de assalto, durante brigas em que
perdemos o controle, diante do terapeuta que desvenda nosso lado
inconfessável. Certo dia aluguei a série Dexter, produção
norte-americana indicada por uma amiga jornalista aficionada por séries
televisivas. Alguns episódios depois, fui arrebatada pela história de um
serial killer cheio de métodos cruéis e sanguinários, que durante o dia
usa a máscara do perito em sangue que trabalha para a polícia de Miami,
é um namorado atencioso, um irmão carinhoso. Sua história de vida tão
surpreendente e triste e sua predileção por aniquilar apenas pessoas
más, que “merecem morrer”, nos comovem ao mesmo tempo em que horrorizam.
De alguma forma, Dexter nos põe em contato com um instinto natural de
todos nós: fazer justiça com as próprias mãos, eliminando da terra as
pessoas que não consideramos merecedoras de um lugar nessa terra.
Dexter personifica o ser humano maltratado pelo destino, que parece
ter adquirido o direito de viver – ainda que silenciosamente – sua
persona cruel e oculta, e ser aceito. Mas ele é aceito, assim, com seu
lado sombrio, não pelos que o rodeiam, claro – que não conhecem sua
verdadeira identidade – mas pelo telespectador que o assiste e o conhece
verdadeiramente. Um justiceiro que comove porque carrega consigo um
trauma de infância de proporções inenarráveis. Passei os primeiros 12
episódios da série dividida entre a simpatia e o horror. E chego à
conclusão de que Dexter toca porque também nós somos animais
domesticados, contidos numa espécie de rotina que nos controla e evita
que nos deixemos levar por um imenso potencial para o delito. Guardadas
as devidas proporções, claro.
Somos seres humanos que bailam a dança da aceitação, tentando ser
amados e aceitos, o tempo todo: nas nossas carreiras, pelos nossos
parceiros, filhos, parentes, amigos. Lutamos incessantemente, usando
nossas máscaras para ter um lugar no mundo. Buscamos rótulos e mais
rótulos para obter aprovação: a filha estudiosa, a pessoa honesta, a
profissional dedicada, a mãe protetora, a namorada sexy, a patroa
compreensiva. Nossos desejos de chutar o balde nos confundem e precisam
ser reprimidos, controlados, escondidos em caixinhas que guardamos em
compartimentos bem disfarçados. Mexemos neles de vez em quando, mas
aprendemos a reprimi-los cuidadosamente, através da terapia, da
meditação, da ioga, e por aí vai. Volta e meia, explodimos sem saber bem
porque, culpamos a TPM, o trabalho, o stress, a fechada no trânsito, a
noite mal dormida, a doença de um parente, a fila do supermercado.
(...) Como coloquei, guardadas as devidas proporções,
Dexter é nosso alter-ego, nosso “self” escancarado e vivido
intensamente, ainda que apenas durante uma parte do dia. À noite, ao
aniquilar pessoas, ele ganha forças e entusiasmo para viver sua máscara
de bom moço durante o dia. Por linhas meio tortas, Dexter nos aponta um
caminho interessante para este dilema existencial que é tentar disfarçar
o tempo todo nossas imperfeições e inseguranças: a possibilidade de
fazer amizade com o monstrinho que nos habita.
Metaforicamente, claro.
Seja qual for o monstrinho, ele certamente é o que nos revela
imperfeitos, inseguros, até mesmo cruéis. Entrar em contato com ele e
reconhecê-lo pode ser libertador e reconfortante. Uma carta de alforria
merecida, um perdão sem penitência alguma. Que pode até mesmo nos fazer
botar de molho de vez algumas das máscaras que usamos, sem medo que o
mundo nos enxergue como realmente somos: pessoas comuns, com defeitos,
medos, oscilações de humor, manias, preguiça, desejos descabidos,
sonhos, limites de paciência e tolerância, limites de sabedoria e
conhecimento.
“Enfrentando a imperfeição, aprendi a perdoar. Olho para a raiz das
ações, e concluo que também eu podia ter cometido. A pior delas.” (Inês Pedrosa)
Fonte: Texto de Claudia Penteado na coluna Mulher7por7 da Revista Época.





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